Peça Noturnos é atração no Centro de São Paulo

Um mergulho pela noite e os acontecimentos que permeiam os moradores de rua. Assim pode ser definido o espetáculo “Noturnos”, estrelado pela companhia recifense Fiandeiros, que estreia na capital paulista, no próximo dia 31, no palco do Teatro IVO 60, na República.

A peça é fruto de uma pesquisa sobre invisibilidade social realizada com moradores de rua da cidade do Recife. “A pesquisa em si demorou aproximadamente nove meses e a montagem mais uns três. Isso tudo dá em torno de um ano a um ano e meio, desde o início da pesquisa até a conclusão e montagem do espetáculo”, revela o diretor da peça e da companhia, André Filho.

Foi a partir dessa pesquisa que a dramaturgia foi desenvolvida. Com isso, o espetáculo aborda a invisibilidade social como um todo, tendo como pano de fundo os moradores de rua.

A ideia surgiu de um livro chamado “Homens Invisíveis”, de Fernando Braga Costa, um sociólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP). “Neste trabalho, Braga deu ênfase na invisibilidade dos garis e a partir desse trabalho decidi mudar o foco e colocar os moradores de rua em evidência”, explica Filho.

O espetáculo se divide em três quadros, em que os personagens não têm nomes e em que não há a preocupação de contar a história de nenhum deles. “São como arquétipos do homem urbano, que fazem parte dessa neurose. Nos três quadros são abordados temas como a solidão na cidade grande, a violência, os traumas sexuais, entre outros.”

A primeira cena conta a história de uma mulher mais velha, que não enxerga, e de uma jovem. Ambas vivem nas ruas. A mais velha está em busca de sua filha, que a abandonou, enquanto a mais nova também procura uma mãe. Fica um jogo que instiga a plateia a descobrir se a garota é realmente filha dela ou não. No segundo momento, um personagem aparece sozinho e fala da solidão e da neurose. “Ele dialoga com a própria solidão, com a neurose, com a violência da cidade grande.”

Na terceira cena, é a vez de dois artistas circenses tomarem o palco. Um palhaço velho e decandente que também mora nas ruas é o contraponto de uma musicista interpretada por uma atriz mais jovem.

Enquanto um vê sua vida se fechar, a outra busca a glória e o estrelato. Há um conflito de gerações, nascimento, vida e morte. São três momentos bem distintos.

Debate

Um dos diferenciais é que depois de cada apresentação, os atores fazem um debate junto a plateia para tratar do tema a gente realiza debates com a plateia para tratar do tema invisibilidade social. “Em São Paulo esse debate vai contar com a presença do professor Fernando Braga Costa, para discutir conosco todas essas questões”, conta o diretor.

“Noturnos” foi apresentado em Niterói e na cidade do Rio de Janeiro, e a receptividade do público tem sido positiva. “Têm surgido discussões muito interessantes. Um dado que a gente não sabia é que 10% dos moradores de rua do Rio são oriundos de faculdade, têm pós-graduação e tiveram um padrão educacional muito bom. Por alguma razão em suas vidas resolveram ir morar nas ruas”, afirma André Filho. Com duração de uma hora e vinte minutos, o espetáculo reserva ainda uns 40 minutos após a apresentação para conversar com o público sobra o processo de criação de personagem e a troca de experiências e informações.





Além de ter passado pelo Rio de Janeiro, Niterói e chegar a São Paulo, a montagem ainda segue rumo a Curitiba. “A princípio nosso espetáculo iria circular pelo norte e nordeste do Brasil. Mas conseguimos uma pesquisa com dados oficiais do próprio governo que as quatro cidades com maior índice de moradores de rua eram exatamente essas quatro. Foi então que decidimos viajar para esses lugares para com o objetivo de suscitar uma discussão sobre essa temática”, explica.

Conscientização

Com o intuito de levar o público a reflexão do que é a invisibilidade social, o grupo pretende aproximar os espectadores dos que vivem a margem da sociedade. “Queremos apresentar uma obra de arte. Se conseguirmos fazer com que as pessoas nos entendam, um dos nossos objetivos está conquistado. Agora enquanto obra de arte, cada um terá sua interpretação. Não temos a pretensão de levantar uma questão sociológica sobre a temática”.

Segundo o diretor, em algum momento da vida todos passam por uma situação em que ficam invisíveis perante ao outro. “Seria interessante se as pessoas conversassem sobre o que é ser invisível nessa sociedade contemporânea. Acho que é o grande ponto da peça, o que é ser visível ou invisível. Hoje não nos vêem mais como seres humanos. Somos vistos pelo CPF, ou pelas instituições as quais pertencemos”.

Entre os principais desafios na hora de compor a peça, esteve o processo de pesquisa de campo. “Para o ator essa foi a maior dificuldade com certeza. Conviver com o pessoal nas ruas, com uma realidade completamente diferente do que se está habituado é difícil. Nunca teremos de fato a ideia do que é ser um morador de rua, porque por mais que passássemos três ou quatro horas com eles, a hora que saíamos dali íamos para nossas casas, teríamos nosso banho, íamos discutir tudo no bar. Mas eles não fariam isso”, relata.

Em contrapartida, o grande trabalho do diretor foi colocar todas essas observações em uma dramaturgia, traduzir essa experiência em palavras. “Não queria fazer um espetáculo em que ficassem esperando por um texto sobre miséria ou em que as pessoas falam errado. Minha preocupação foi escrever sobre tudo isso de uma maneira poética e lúdica”.

Os personagens colocam as questões com tom de realismo, mas de uma maneira tranquila, que não expõe nenhum dos moradores e nem explora a realidade deles. “Não quis contar a história de nenhum morador de rua. Nosso objetivo foi falar de maneira ampla e plural a questão da invisibilidade tendo o universo dessas pessoas como pano de fundo”.

Com todas essas experiências, o nome “Noturnos” veio de uma maneira natural. “Decidi colocar esse título porque nossas saídas se davam na parte da noite na maioria das vezes”, finaliza o diretor.

Serviço:

Noturnos – Teatro IVO 60, à R. Teodoro Baima, 78, na República. De 31 de outubro a 2 de novembro. Ingressos: R$ 10 a R$ 20. Informações: (11) 99642-8350.

Fonte: Portal DCI





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