Ele trocou o luxo para atuar nas ruas do centro de SP: ‘Tem gente que nem nasceu e será beneficiada’

A Evolução Pessoal de Eduardo Paziam

Eduardo Paziam, um designer têxtil de 50 anos, decidiu mudar drasticamente sua trajetória profissional. Ele trocou uma carreira de sucesso na moda, caracterizada por contratos de alto valor e coleções reconhecidas mundialmente, para se tornar jardineiro no centro de São Paulo. Desde o início do seu projeto em 2023, Paziam já plantou mais de 5 mil mudas nativas da Mata Atlântica, dando vida ao projeto conhecido como Pazipê.

Seu objetivo vai muito além de receber reconhecimento ou lucro financeiro. Ele defende que as ações que realiza hoje beneficiarão gerações futuras. Segundo ele, “tem gente que nem nasceu e vai ser beneficiada por isso que eu estou fazendo. Para mim, isso é fascinante.” Esta mudança de estilo de vida não ocorreu por um evento isolado, mas foi resultado de uma série de reflexões acumuladas ao longo do tempo.

O Que Motivou a Mudança de Carreira

Eduardo começou a avaliar a indústria têxtil e suas práticas insustentáveis, principalmente o uso excessivo de água. Além disso, a pressão de atender clientes via WhatsApp o deixava angustiado e com a sensação de que estava perdendo tempo precioso. Com isso, ele começou a questionar suas prioridades e o verdadeiro valor que desejava deixar para o mundo.

biodiversidade

A reflexão profunda sobre suas escolhas foi o ponto de virada que levou Eduardo a considerar uma nova forma de viver e contribuir para a sociedade. Ele percebeu que poderia utilizar o dinheiro que acumulou ao longo dos anos de maneira mais significativa e duradoura, optando por uma vida que lhe trouxesse não apenas satisfação pessoal, mas também um legado para a natureza.

Criando Corredores Verdes em São Paulo

Após retornar a São Paulo, Eduardo se deparou com a iniciativa da Subprefeitura da Sé, que planejava construir jardins de chuva na frente de seu prédio na República. Essas estruturas ajudam a melhorar a permeabilidade do solo e a controlar as águas da chuva, reduzindo o risco de alagamentos e enchentes. Ele se ofereceu para cuidar desses espaços, mas, infelizmente, viu seus esforços iniciais não terem o efeito desejado.

Desencorajado, Eduardo partiu novamente em direção à Ásia, onde teve experiências transformadoras. Essa viagem o fez perceber que viver intensamente é mais valioso do que acumular bens materiais. Ao retornar, ele decidiu que colocaria sua nova filosofia em prática e começaria a cultivar as plantas que sonhara em fazer florescer na cidade.

O Impacto do Projeto Pazipê

Eduardo implementou uma rotina disciplinada para cuidar de suas plantas, começando suas atividades diariamente às 5h30. As tarefas incluem a coleta de lixo, irrigação dos canteiros e plantio de novas mudas, numa média de dez por dia. Ele atualmente mantém 33 canteiros na Avenida São Luís, além de um pomar na Praça Dom José Gaspar.

Para garantir a continuidade do seu trabalho, Eduardo buscou apoio da comunidade local. Ele foi solicitado por moradores para cuidar dos canteiros nas avenidas Ipiranga e São Luís. Nesse contexto, conheceu Francisco, um jovem venezuelano que se tornou seu parceiro de plantio. Juntos, eles incentivaram o uso de espécies nativas, uma prática que Eduardo valoriza imensamente.



Engajamento da Comunidade Local

A iniciativa de Eduardo não apenas transformou o ambiente urbano, mas também mobilizou os moradores em torno da agricultura urbana e do cuidado com o meio ambiente. Ele recorreu ao programa “Adote uma Praça”, pelo qual comerciantes e indivíduos podem apadrinhar canteiros e colaborar com o manutenção, contribuindo para a revitalização do espaço público.

Um exemplo de engajamento vem de Celso Jamelo, proprietário da Bankatelier, uma banca localizada em frente ao pomar “Jardim das Delícias”, onde mais de 20 espécies de plantas estão presentes. Ele explica que ser um guardião dos canteiros requer colaboração e respeito, e que todos têm um papel ativo na manutenção e valorização do espaço verde.

A Importância das Espécies Nativas

A escolha de plantas nativas não é apenas uma questão estética; é essencial para a recuperação da biodiversidade. Eduardo destaca que, em tempos passados, a região era coberta pela Mata Atlântica e que, por isso, ele evita introduzir espécies exóticas, que podem se tornar invasoras e ameaçar o ecossistema local.

Em seus canteiros, podem ser encontrados exemplares como pau-brasil, ipês-amarelos, ipês-brancos, entre outros. Ele visualiza esses espaços como pequenas florestas urbanas, onde as interações entre as raízes das plantas acontecem, promovendo um ambiente mais saudável tanto para as plantas quanto para a fauna.

Desafios Enfrentados na Iniciativa

Eduardo enfrenta diversos desafios em sua missão. A falta de apoio institucional e o desinteresse de parte da população são alguns dos obstáculos que tenta superar. Além disso, a manutenção das plantas exige um investimento financeiro significativo, já que ele mesmo aplicou mais de 80 mil reais de seus recursos pessoais no projeto.

Apesar das dificuldades, ele revela que a maior recompensa de seu trabalho é a satisfação pessoal e o impacto positivo que sua iniciativa gera na comunidade. Ele se imagina caminhando pela Avenida São Luís em dez anos e vislumbrando uma floresta urbana vibrante, um legado que ele deseja deixar.

Financiamento e Parcerias para o Projeto

A sustentabilidade financeira do projeto depende, em parte, das doações de moradores e comerciantes locais. Eduardo também procura parcerias com empresas privadas, que podem apadrinhar os canteiros em troca de reconhecimento, como placas que identificam sua contribuição.

Através dessas parcerias e doação de mudas e suporte comunitário, Eduardo busca garantir a continuidade de suas atividades, ciente de que cada pequena ajuda é uma contribuição significativa para a construção de um ambiente mais verde e saudável na cidade.

Educação Ambiental nas Ruas

Além de cuidar das plantas, Eduardo também vê a importância de educar a população a respeito do valor das espécies nativas e do impacto das ações humanas no meio ambiente. Ele realiza conversa com os moradores, promovendo uma consciência ecológica que vai além da estética e do embelezamento da cidade.

Durante as visitas que realiza, Eduardo incentiva práticas sustentáveis e discute como as pessoas podem contribuir para a preservação do ecossistema urbano, reforçando que um ambiente saudável é benéfico para todos.

Visão de Futuro para a Cidade Verde

A visão de Eduardo para o futuro é idealista, mas também muito realista. Ele almeja que, nos próximos anos, o que hoje é considerado um projeto isolado se transforme em um movimento maior, onde outras iniciativas semelhantes possam surgir em São Paulo e em outras cidades do Brasil.

Ele acredita que, com educação e engajamento comunitário, é possível retornar à biodiversidade que estava presente em nossa história e que ainda pode existir em nosso dia a dia. A ideia é inspirar e facilitar que outros sigam esse caminho, plantando a semente de uma consciência ambiental mais forte e coletiva.



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